
::.. Poemas de José Ariton RamosNascido em Alvorada (RS), José Ariton Ramos é militar de ativa e formado em Letras pela FAPA-RS. Contatos com o autor pelo e-mail zeito10@hotmail.comDemência Enquanto dementes dilaceram-se Em torno do fosso da tristeza Bocas escancaradas nos esperam Para mascarem as certezas. Enquanto da vida se espera a paz, De um sonho profundo o descanso, Se traz por um ato fugaz O amargo momento à lembrança. Com mãos enodoadas de fel Em torpor se fragmenta E o mel que corria um dia Agora o é esquecimento. Cabisbaixo necessita de amparo E queixa-se da dor em seu peito, De um coração que se partiu, De uma alma em pleno tormento. Sabe que a luz expira Que em um sopro tudo se acaba Não tem de um beijo saudades, Nem falsifica as emoções fúteis. A dor, o ódio e o amor, dignos de desdenho Escondem-se nas entrelinhas inúteis Dos bilhetes amantes de outrora. De volta à Terra do Nunca Meu chapéu de pirata surrado caiu de mim Minhas roupas desbotadas agora estão rasgadas Meu corpo crivado por espinhos adormece de dor À beira dos caminhos em que ando O passado me resta, sou cansado. O futuro se dilui em breve momento E o meu presente perdeu-se em vida Com muitas marcas doces, amargas... As bocas sorridentes que de mim caçoam São as convivências que tive com o repugnante, Sombrio que toma entre os dentes os farrapos de vidas E dilacera o que era frágil em mim. De espadim entre os dedos, sou eu o perverso, O único sentimento que vale à pena agora é o remorso, A única marca que deixo é meu coração pesado, Arrastando-se em chamas, fulminado pelo desejo. Amar é Bom Escorreram pela boca os restos de palavras doces faladas durante o fulgor do amor Entorpecidos pela fragrância dos corpos suados sobre o lençol molhado, atirados Descansam ... Cansam ... Descansam ... Cansam ... Descansam ... Esparramados a vida passa como dulcíssimo mel O fel de fora agora não atinge A agonia do dia se adia Na hora não se pensa em tempo, não há tempo. Apenas ouve-se o som do vento no roçar dos corpos que de novo se movimentam Inventam ... Inventam ... Reinventam ... São inventores do amor que a cada descanso se renova E cantam ... Cantam.. Cantam .. Porque são poesia em sublime forma conexa, côncavo-convexo que alucina no ritmo Sublime amor que se escancara num sorriso e fica tatuado em suas auras Que sai do suor, das lágrimas, da boca molhada que beija Beija... Beija... Beija... Beija... E amam como a primeira, como a última, fazendo do instante um eterno festejo. A Ilha que Suspira Suspira meu porto seguro Enquanto em braçadas Sofro longe de teus braços o agouro. O albatroz em meu rosto diz em revoada: És amada... Sussurra no seu vôo As palavras que tu disseste antes Distorcidas, Quase apagadas No bater de suas asas me iludo: Foste amada... O cansaço me diz que jaz No fundo de teu peito náufrago O amor que me desejavas pra sempre... De braços abertos Em tua praia sufocada ouço, Num último balbúcio a ave dizer-me: Nunca foste amada. Pouco Sempre que você vem, a lua nasce Quando você está, eu renasço E meu amor cresce ... E povoa o mundo ... Quando você não está, fico a espera da lua, para suplicar conivência. Você não vem fico mudo, regresso em mim e meu peito se cala. Eu, pasmo a olhar para a lua, Doce martírio, Cruel tortura. Quando você vinha eu brotava e tinha orgulho, agora Sempre que me olho, sei que aquele é mudo Sei que o que tenho a dizer é nada e meu verbo não é verbo E o que tenho é pouco. Quem sabe um dia mudo e me torno superfície Desnudo na primeira olhada, Esquecido no passado, Incapaz de pessoalidade. Só me resta ser adubo, Assim renasço o bem e o mal O cogumelo e a flor, O ódio e o amor Sem cobrança, sem palavras, sem nada. Flor Murcha O rasto de vida escorre por debaixo do tapete, Pelo chão da sala rasteja como lixo Vestida de vermelho num fino corpete, Resto de vida do que foi um dia. Sabe quem a vê assim Decaída Que o lume que teima em existir definha Seca pelo desencanto de amantes Varada por seu pranto escondido, Varrida pelo chão do mundo como imundície, Borrada com a lembrança degradada Do luxo que ostentara um dia. Num último afã embala um canto Dos tempos saudosos de ostentação E despedaça suas vestes Deixando no solo rubro borrão. Quem passa não vê ou simula Pela culpa ou por desdenho, Ou quem sabe por saudade Da cor e da mocidade, Do aroma e da licenciosidade Daquela flor cortesã. Penhascos Vidas escarpadas, Campos desforrados, Ventos que uivam nas estalagmites Atormentam os desacostumados Grandes rochedos bocaescancarada Esperam em silêncio o fim da jornada São sons sem sotaques, São fraques negros, brancos, amarelos, De chinelos, sapato bico-fino, Com camisetas ou camisa fino linho que cairão lá do alto. Fazendo sons sem sotaques: Um tum! Seguido de crack! Numa seqüência infinita. Comprador de Sonhos Sempre que saio à rua vejo os sonhos São de amor cobertos de morango paixão São de esperanças recheados de espanta-solidão Sonhos de igualdade com creme de beijos Vejo sonhos dormidos mas não esquecidos Sonhos com cheiro de chegada, não de partida Que não se importam com o vento Que se ofertam no bom e no mau tempo São sonhos cheios de céu, de amor, de mistério, com aroma de canela Sonhos de estou sempre contigo, com um pouco de te quero picante Com massa macia , suspiro de pecadinho intrigante Com gosto de verão, outono, inverno e primavera O sonho na rua que é a mesma tua O sonho de minha vida a tua espera Lavadeiras Blá, blá, blá, você viu? Ti, ti, ti, então me conta! Esfregam, esfregam a vida alheia, Ensaboam as fuxiqueiras... Você sabe? Você viu? Falam tudo pelos cotovelos... Você viu? Você sabe? Abre o bico a lavadeira. Se é verdade não se sabe. Se é mentira, também não. Elas juram de pés juntos Que ouviram de antemão. Falam, falam as tagarelas, A se importarem com o alheio. Com sabão e alvejante deviam Lavar suas línguas matreiras. |